Peter Joseph Corbett: Querido Padre Pedro
Neste artigo, compartilho a minha relação sentimental com o padre que me batizou, Peter Joseph Corbett, na roça conhecido como Padre Pedro.
Entre as poucas fotos que tenho da minha infância, uma é do meu batizado. A cerimônia aconteceu no distrito de Valão do Barro, no município de São Sebastião do Alto (RJ), celebrada pelo padre Pedro em um salão, já que naquela época ainda não havia igreja no local. Sempre ouvia histórias sobre o padre Pedro. Mamãe o venerava. Tendo sua paróquia no distrito do Alto — próximo a serra do Deus Me Livre —, no mesmo município, quando vinha a Valão do Barro, costumava dormir em nossa casa. Mandava recado de que iria jantar. Em certa ocasião, quando repousou em nossa residência, após tomar um banho, mamãe se assustou ao vê-lo vestindo roupas comuns, sem a batina. Era a primeira vez que via o padre Pedro sem as vestes sacerdotais.

Embora mamãe estivesse grávida de mim de nove meses, padre Pedro insistia para que ela estudasse. Grávida, ainda levava minha irmã, então com cinco anos, a tiracolo para uma improvisada escola. As orientações dadas pelo padre Pedro eram consideradas mandamentos. Meu prenome tem Maria por influência de padre Pedro. Ele pareceu não gostar muito de Janaína, dizendo à minha mãe que se tratava de um dos nomes de Iemanjá, e pediu que acrescentasse Maria para santificar o meu nome. Ficou Maria Janaína. Poucos anos após o meu nascimento, fomos residir em Nova Friburgo, pois padre Pedro aconselhava a mudança às famílias que podiam dar melhor educação aos filhos. Com o tempo, as histórias sobre padre Pedro foram sendo esquecidas, assim como minha foto de batismo no fundo de alguma caixa.
Transcorridas os anos, em certa ocasião, dando uma consultoria ao Museu Hermes Ferro, em São Sebastião do Alto, no distrito do Alto, fui convidada pelo diretor de cultura, Leonardo, para conhecer o seu departamento. Logo na entrada, qual não foi minha surpresa: a foto de padre Pedro. Explicaram-me que ele dava nome a um departamento da Secretaria de Educação do município: Centro Cultural Pe. Peter Joseph Corbett. Foi então que tomei conhecimento de seu verdadeiro nome. O centro de cultura foi inaugurado em 17 de abril de 1999, no governo do prefeito Antônio José Segalote Pontes.

Peter Joseph Corbett nasceu em 5 de julho de 1927, no Rio de Janeiro. Era filho de Daniel Joseph Corbett (1889-1978) e Jeanne Josephine Beaujean Corbett (1900-1990), casados na capital fluminense em 18 de dezembro de 1924. Daniel Corbett era irlandês, e Jeanne Beaujean, belga, conforme dados encontrados no site Family Search. Após a visita ao centro cultural, mais uma vez padre Pedro, ou melhor, Peter Joseph Corbett, caiu no meu esquecimento.
Decorridos alguns anos, tive o privilégio de pesquisar no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, sobre a Casa de Formação Jesuítica. Os jesuítas instalaram-se na cidade em 1885 e, no ano seguinte, fundaram um colégio-internato para meninos: o Colégio Anchieta. Em 1922, o internato encerrou suas atividades para dar lugar à formação de padres jesuítas, diante da carência desses sacerdotes no país. A Casa de Formação abrigava a Escola Apostólica, o Noviciado, o Juniorado e o Filosofado, mas não oferecia o curso superior de Teologia.

Mais uma vez, o destino colocou-me diante do querido padre Pedro. Localizei-o em inúmeras fotografias do acervo do Colégio Anchieta, na sua formação de padre. Imagine minha surpresa e emoção! Esquecera-me que ele fora jesuíta, pois em São Sebastião do Alto atuava como pároco diocesano, ou seja, pertencia a clero secular. Uma das maiores emoções foi constatar, em uma foto que já havia examinado várias vezes durante a pesquisa - sem perceber -, que era o padre Pedro. Pudera, era muito jovem! Ele entrara para o Noviciado aos 16 anos. Cursara o ensino médio no Colégio Santo Inácio, educandário jesuíta no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.

Na leitura dos diários dos padres do Colégio Anchieta, percebi que seu pai era um homem importante e muito próximo dos jesuítas, “particular amigo do R.P. Reitor” [Reverendíssimo Padre]. Quando o senhor Corbett se hospedava no Colégio Anchieta, então Casa de Formação, registravam sua chegada e partida no diário. Em 1946, anotou-se que o senhor Corbett dera mais um filho à Companhia: Terence Joseph Corbett. Era tão próximo dos jesuítas que adquiriu uma propriedade em Monnerat, distrito de Duas Barras, que fazia divisa com o sítio da Companhia, onde os apostólicos, noviços, juniores e filósofos passavam as férias.
A formação de um jesuíta durava entre quinze e dezessete anos. Iniciava-se com dois anos de educação ascética no Noviciado; seguiam-se dois anos de estudos no Juniorado; e depois três anos dedicados à filosofia e ciências auxiliares. Após o curso superior de filosofia, os futuros padres eram encaminhados aos colégios da Companhia, onde, por quatro ou cinco anos, dedicavam-se a exercícios pedagógicos práticos. Findo esse período de magistério inicial, cursavam mais quatro anos de teologia e ciências eclesiásticas.

Peter Joseph Corbett ingressou em 1943 no Noviciado, em Nova Friburgo. Entrou na Companhia justamente no ano em que o Colégio Anchieta voltou a receber alunos externos, convivendo no educandário candidatos à Companhia e estudantes leigos. Concluído o Filosofado, no período de magistério, Peter Corbett lecionou na Escola Apostólica e para os alunos externos, ministrando física, matemática, química, ciências, francês, inglês e canto orfeônico. Era muito querido pelos alunos. Atuou também como capelão da Casa dos Pobres São Vicente de Paulo e do hospital Raul Sertã.

Cursou Teologia em São Leopoldo (RS), etapa final de sua formação. Já seu irmão Terence Corbett seguiu para São Paulo após concluir o Filosofado, para cumprir o período de magistério no colégio jesuíta São Luiz. No final de 1957, tudo indica no mês de setembro, o então padre Peter Corbett viajou pela Companhia de Jesus aos Estados Unidos para fazer mestrado em física. Retornou ao Brasil em 1959 ou 1960, sendo o primeiro ano, o mais provável.

Contudo, em 1961, o padre Peter Corbett tomou uma decisão polêmica: deixou a Companhia de Jesus e ingressou no clero secular. Em 25 de julho de 1960, dom Clemente José Carlos de Gouveia Isnard foi sagrado bispo da Diocese de Nova Friburgo. Ao chegar à cidade, seu primeiro ato foi visitar o Colégio Anchieta, onde vemos o padre Peter Corbett acompanhando-o em duas fotografias.


Padre Peter Joseph Corbett acompanha a primeira visita do bispo, Dom Clemente Isnard, ao Colégio Anchieta. Acervo Colégio Anchieta.
De acordo com um seu ex-aluno que entrevistei, o padre Corbett revelou-lhe que preferia obedecer ao bispo em vez do reitor do Anchieta. Aproveitando a posse do novo bispo, solicitou ingresso na Diocese de Nova Friburgo. A Companhia tinha grandes planos para ele: substituir o padre Francisco Xavier Rozer na reitoria da PUC-Rio, pois, além de físico com mestrado no exterior, era representante da área junto à ONU. Dom Clemente Isnard designou em 26 de março de 1961, o padre Peter Corbett para a paróquia de São Sebastião do Alto. Seu apostolado, em uma cidade economicamente decadente, foi a educação.


Igreja Matriz no distrito do Alto, em São Sebastião do Alto. Acervo pessoal.
No passado, São Sebastião do Alto tivera seus morros repletos de cafezais e suas várzeas ocupadas por plantações de arroz, milho e cana. As terras férteis atraíram colonos suíços, como os Lemgruber e os Dafflon, e, em 1884, o fazendeiro Cornélio de Souza Lima introduziu na fazenda São Marcos uma importante colônia agrícola de imigrantes italianos. A prosperidade da freguesia de São Sebastião do Alto gerou uma aristocracia cafeeira altense, como o Barão de Rimes e o Barão de Castelo. No entanto, o plantio nos morros sem respeito à curva de nível provocou a erosão do solo e o declínio da lavoura cafeeira. Como em toda região serrana, a economia local foi substituída pela pecuária, para produção de leite, atividade que demanda pouca mão de obra, reduzindo oportunidades de emprego. Foi nesse contexto que o padre Peter Corbett se instalou em 1961, e me batizou em outubro deste ano.


No passado, estes morros estavam cobertos por arbustos de café. Acervo pessoal.
Padre Peter Corbett era conhecido pelo dinamismo. Conseguiu recursos para construir os ginásios Altense e de Nossa Senhora do Livramento, assumindo a direção de ambos. Capacitou as professoras no município de Campos para que obtivessem a licenciatura, transportando-as incansavelmente em seu famoso e inseparável jipe.

Introduziu o Movimento Popular de Alfabetização, atendendo a população rural com a educação de adultos. Com o apoio da Cáritas, distribuía gêneros alimentícios e agasalhos à população pobre. Foi responsável por levantar verba para a construção da igreja Nossa Senhora do Livramento, em Valão do Barro. Meu avô materno, Irineu Machado Botelho, enterrou a urna de lançamento dessa igreja, em cerimônia que contou com a presença do bispo dom Clemente Isnard.


Depois de construir escolas, igreja, e estimular a educação em São Sebastião do Alto, tomou uma decisão que mudaria completamente o rumo de sua vida: abandonou o sacerdócio, deixando a paróquia em 31 de maio de 1968. Peter Corbett, ao deixar o clero, confidenciou a um interlocutor que o sacerdócio, na verdade, nunca fora sua vocação. Seus pais, extremamente religiosos e católicos, desejavam ter um filho padre a qualquer custo. Seu irmão Terence também deixou a Companhia, formou-se diplomata, serviu na Hungria e, por uma fatalidade, veio a ser assassinado neste país.
Peter Corbett casou-se com uma professora do distrito do Alto, e mudou-se para o Rio de Janeiro. Pai de três filhos — uma menina e dois meninos —, sua formação e elevada qualificação proporcionada pela Companhia de Jesus, lhe propiciou um cargo de executivo em uma empresa multinacional, a Telegraph and Telephone Corporation. No entanto, nessa nova fase de sua vida, parece não ter conseguido lidar com o conflito de ter deixado o sacerdócio. Tudo indica que faleceu em 1981, quando sua mãe ainda vivia. Peter Joseph Corbett se destacou como construtor de templos — tanto religioso, quanto educacionais. Este artigo não é apenas um texto para perpetuar a sua memória. É também uma oração à sua alma, do meu querido padre Pedro.
