Um Ilustre Visitante - Passagens de D. Pedro II por Nova Friburgo
D. Pedro II visitou Nova Friburgo três vezes. Em 1873, inaugurou um trecho da Estrada de Ferro Cantagalo. Em 1874, acompanhou a princesa Isabel em um tratamento para engravidar no Instituto Hidroterápico. Em 1876, retornou com a imperatriz Teresa Cristina para um tratamento no mesmo instituto.
Nas pesquisas que venho realizando sobre o século XIX em Nova Friburgo (RJ), deparei-me com registros de algumas passagens do Imperador D. Pedro II pela cidade serrana. Na sessão da Câmara Municipal de 17 de outubro de 1846, foi lida uma portaria do governo provincial comunicando que Sua Majestade, em visita à cidade de Campos dos Goitacazes, poderia, no retorno, passar pela vila de Nova Friburgo. Diante da notícia, a Câmara Municipal determinou que fossem tomadas providências para deixar em bom estado as estradas por onde o soberano transitaria, além de organizar uma recepção condigna. Oficiaram ao barão de Nova Friburgo, Antônio Clemente Pinto, solicitando-lhe que se dignasse a emprestar sua residência para hospedar Sua Majestade Imperial, pedido que foi prontamente aceito pelo nobre. Paralelamente, os vereadores iniciaram uma subscrição para custear os festejos. Contudo, tudo indica que o Imperador não passou pela vila serrana.

Em 18 de dezembro de 1873, D. Pedro II veio a Nova Friburgo a convite de Bernardo Clemente Pinto Sobrinho, futuro conde de Nova Friburgo, para inauguração do prolongamento da Estrada de Ferro Cantagalo, no trecho de Cachoeiras de Macacu a Nova Friburgo, no qual a família era proprietária.


Estação de trem (esquerda) e chalé da família Clemente Pinto (direita), atualmente Nova Friburgo Country Clube.
Houve um banquete na chácara dos Clemente Pinto oferecido ao Imperador e sua comitiva. Diabético, aproveitou a oportunidade para tomar duchas no Instituto Sanitário Hidroterápico, do médico Carlos Eboli. O tratamento consistia em jatos intensos de água aplicados em diversas partes do corpo, uma técnica da hidroterapia destinada a estimular a circulação sanguínea e produzir efeitos benéficos à saúde.

O periódico “O Mosquito”, edição 00224, de 1873 ironizou numa charge, mostrando o médico Carlos Eboli e o sócio aplicando esguichos de água no Imperador e num assessor.

Fiz um print da ducha utilizada pelo Imperador, do documentário do arquiteto e historiador Alexandre Quintela. Ela foi vendida à família do barão das Duas Barras e instalada em uma de suas fazendas.


Ducha do Instituto Sanitário Hidroterápico
Já em 1874, sua vinda a Nova Friburgo deve-se a um motivo especial: acompanhar a princesa Isabel, que se submeteria a um tratamento no renomado Instituto Hidroterápico da cidade. A herdeira do trono, em uma busca de procedimentos que a auxiliasse a engravidar, recorreu à hidroterapia, submetendo-se às famosas duchas de Carlos Eboli. D. Pedro II encontrou a oportunidade de desfrutar momentos preciosos ao lado de sua amante, a condessa de Barral, dama de companhia da princesa. Numa época de casamentos arranjados encontrou a sua “alma gêmea”, como ele relata em seu diário, numa mulher inteligente, despojada, culta e que vivera boa parte de sua vida em Paris. Ficaram hospedados no Hotel Leuenroth.




Hotel Leuenroth. O prédio não existe mais, mas o nome da rua permanece - rua Leuenroth, no centro. A condessa de Barral à direita.
D. Pedro II retornaria a Nova Friburgo dois anos depois, em janeiro de 1876, acompanhando a Imperatriz Teresa Cristina que fez uso das duchas para tratamento de alguma indisposição. A partir de então, as duchas já não eram tão somente um tratamento, passa a ser “chic”, imitado pelas elites da Corte e divulgado pelos jornais e folhetins da época. Na ocasião foi oferecido um baile à Sua Majestade e esposa no Hotel Salusse, preparado e iluminado a capricho. O Imperador não dançou, registrou o jornal “A Pátria” (17 de fevereiro de 1876), que cobria sua estadia na cidade serrana. Depois da ceia retiraram-se, prolongando o baile até as 2h da madrugada, onde “Reinou durante a noite a maior cordialidade, havendo muita familiaridade e ostentando-se muita riqueza, se bem que houvesse simplicidade na maioria das toilettes”, conforme o jornal. O Imperador ficou novamente hospedado no hotel Leuenroth e trocava correspondência com a condessa de Barral.

De acordo com o livro de Alcindo Sodré “Abrindo um Cofre”, D. Pedro II em sua correspondência com a condessa escreveu:
“Condessa, onde se achará fresco? Valha-me a água dos banhos.(...)Confirmo meu juízo: Teresópolis majestoso; Petrópolis lindo e Friburgo bom lugar de tomar fresco, quando o há. Espero ler bastante aqui e recorrer a quanto esguicho puder refrescar-me...” (Nova Friburgo, 13 de janeiro de 1876)
O Imperador retornou a Corte, mas a imperatriz permaneceu no tratamento em Nova Friburgo.
“Condessa, parece que de lá[Friburgo] custam muito a chegar notícias. Os de lá[Friburgo] vão bem assim como a Imperatriz em Friburgo d´onde tive telegrama esta tarde...”(Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 1876).
Em 17 de fevereiro de 1876, retorna a Nova Friburgo. Referindo-se as duchas escreveu:
“...A Imperatriz tem se dado bem com as duchas, e eu também gosto das refrigerantes...”
Retornando com a Imperatriz ao Rio de Janeiro escreveu à condessa, no melhor estilo do romantismo:
“Condessa(...) creia que olho sempre com imensas saudades para os quartinhos do anexo do Hotel Leuenroth...” (Rio de Janeiro, 04 de março de 1876).
Assista ao curta metragem abaixo.
